domingo, 11 de julho de 2010

Medida de riscos - Revista Razâo de Investir

A aplicação de regras de suitability, em vigor desde janeiro último, é bem recebida pelo mercado

A redução na rentabilidade dos fundos de renda fixa e a queda nas taxas de juros estão fazendo com que cada vez mais investidores procurem aplicações de risco para aumentar o patrimônio. Essa tendência criou um desafio para os bancos de varejo: calibrar a venda de produtos financeiros à efetiva disposição para o risco de cada cliente. Desde o início deste ano, os interessados em aplicar recursos em fundos de ações, multimercados ou de crédito privado são submetidos à Análise de Perfil do Investidor (API). 
A iniciativa foi da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Tem como base o Código Anbima de Regulação e Melhores Práticas para Fundos de Investimentos, que, em janeiro de 2008, passou a exigir a adoção de regras de suitability (que pode ser traduzido por adequação), metodologia largamente utilizada na Europa, Ásia e, principalmente, nos Estados Unidos, onde metade dos investidores convive bem com os investimentos de risco. “Tudo na vida é evolução e a API responde à evolução das necessidades dos investidores”, afirma Marcos Villanova, coordenador da Comissão de Distribuição de Produtos de Varejo da Anbima.
 
A Análise de Perfil do Investidor é feita por meio de questionário elaborado pelos bancos com perguntas relacionadas à idade, experiência em investimentos, horizonte de aplicação, finalidade, valor aplicado e tolerância a risco do investidor. Cada resposta corresponde a uma nota. No Santander Brasil, por exemplo, todos os clientes que solicitam aplicações iniciais em fundos que envolvem risco são submetidos a um questionário com sete perguntas e, dependendo da resposta, são classificados em três categorias de investidor: conservador, moderado ou arrojado.
 
 
O conservador tem baixa tolerância a risco, já que pode necessitar de recursos no curto prazo. Os investimentos, portanto, devem ser igualmente conservadores. O moderado busca retorno diferenciado no médio prazo e está disposto a correr algum risco. Tem baixa necessidade de liquidez no curto prazo e disponibilidade para diversificar suas aplicações em alternativas arrojadas. Mas, também para estes, o banco não recomenda a aplicação diretamente no mercado de ações.
 
O investidor de perfil arrojado tem alta tolerância a risco, baixa ou nenhuma necessidade de liquidez no curto e médio prazos e está disposto a aceitar oscilações do mercado. Estes estão aptos a aplicar uma parcela maior do patrimônio em fundos multimercados e de ações, conjugados investimentos conservadores. Definido, o banco está pronto para sugerir uma carteira de aplicações adequada ao investidor.
 
“Para alguns fundos de renda variável, renda múltipla ou crédito privado, o questionário é obrigatório. Trata-se de um investimento de risco moderado a arrojado”, explica Leandro Bren, superintendente do Asset Management do Santander.
 
Cada banco criou sua própria metodologia, utilizando como referência o Código da Anbima. O questionário utilizado pelo Banco do Brasil na Análise de Perfil de Investidor, por exemplo, tem oito perguntas, por meio das quais classifica clientes nas categorias conservador, moderado e arrojado. O do Bradesco tem oito questões para identificar cinco cate­gorias de investidor: conservador, moderado sem renda variável, moderado com renda variável, dinâmico e arrojado.
 
Villanova explica que o investidor poderá optar por preencher o questionário novamente sempre que tiver alguma alteração em seu perfil e os bancos se comprometerem a atualizar o questionário periodicamente. Se o investidor não concordar com o perfil estabelecido a partir de suas respostas e quiser investir num fundo teoricamente não recomendado, deverá assinar um termo declarando ter ciência dos riscos que está assumindo.
 
A verificação da adequação do perfil ocorre em dois momentos: a cada nova aplicação e mensalmente, por meio dos extratos que indicam a compatibilidade de aportes aos fundos elegíveis na análise. 
 
O Santander Brasil ainda está avaliando até que ponto a análise de perfil influencia, efetivamente, a decisão de investimento. “A maior parte ainda é renda fixa de DI. Mas já há diversificação para multimercados e renda variável como reflexo da queda na taxa de juros”, adianta Bren. Mas a análise já inspirou o banco a lançar um novo produto no mercado: um investimento de capital protegido. “A aceitação é muito boa. Trata-se de uma aplicação para clientes de perfil moderado: ele investe, tem diferentes cenários de rentabilidade e, ao final do período principal, está protegido. É uma boa forma de iniciação no mercado de renda variável. E pode ajudar também os clientes de perfil mais conservador.”
 
O Itaú Personnalité já fez as contas e constatou que o percentual de clientes que corriam menos risco do que o sugerido por seu perfil já caiu nos últimos dois meses. Entre janeiro e fevereiro, o número de clientes que arriscavam menos do que poderiam caiu de 40% para 26%.
 
A Anbima garante que a Análise de Perfil de Investimento está tendo uma boa aceitação no mercado. “É um serviço que não custa nada e ajuda o cliente a alocar recursos num portfólio de maior rentabilidade”, argumenta Villanova. Os investidores, diz ele, têm seguido as avaliações da API para ganhar mais, com menos risco. “Trata-se de um jogo de ganha-ganha, já que essa metodologia traz benefícios também para os bancos e para os assets. Estamos todos amadurecendo juntos.”
 
A mesma metodologia passará a ser utilizada, em breve, pelas corretoras de valores, cujos clientes deverão responder a um questionário para definir o perfil de investidor. De acordo com Villanova, a data para a implantação do serviço ainda não está definida.
 
Algumas empresas de planejamento financeiro, como, por exemplo, a Finplan, já utilizam esse modelo para alicerçar a carteira de investimentos dos clientes. “Trata-se de uma prática muito positiva para o investidor, pois garante mais segurança de que o produto é o mais adequado ao seu perfil e às suas necessidades”, afirma Priscila D’Addio, diretora de operações da Finplan.
 
 
Às perguntas básicas, a Finplan agrega outras questões por meio das quais pretende medir a tolerância ao risco. “É preciso ter uma percepção da reação do investidor do ponto de vista emocional. Se houver desvalorização, ele entrará em desespero?”, justifica Priscila. “A partir de seu perfil, desenvolvemos carteira de investimentos, orientando sua vocação.” Ela identifica uma atitude “mais proativa” entre investidores mais jovens. Mas afirma que ainda prevalece “uma certa inércia” no que se refere aos investimentos: algumas vezes a decisão do investidor pode ser influenciada por fatores externos ao mercado, como, por exemplo, a alíquota do Imposto de Renda. “Se ele constatar que vai mudar de alíquota, pode deixar para depois.”

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